quinta-feira, 19 de junho de 2008

*Tucanos blindam CPIs em São Paulo

*Tucanos blindam CPIs em São Paulo

Das cinco comissões da Assembléia paulista, só uma investiga atos de alguma
gestão do PSDB. Em quatro anos, 69 pedidos foram engavetados*

*Paulo Franco**
Controlando 71 das 94 cadeiras da Assembléia Legislativa de São Paulo, com o
apoio de outras 11 legendas, os tucanos têm passado verdadeiro rolo
compressor sobre a oposição para enterrar as CPIs que possam se voltar
contra o Executivo paulista.
A estratégia tem surtido efeito. Das cinco comissões parlamentares de
inquérito em funcionamento na Casa – número máximo permitido pelo regimento
interno –, apenas uma investiga ato praticado sob a gestão do PSDB: a CPI da
Eletropaulo, que apura irregularidades na privatização da distribuidora de
energia, em 1998, no governo Mário Covas (1995-2001).
As demais passam longe do Palácio dos Bandeirantes. Tratam da queima da
palha da cana-de-açúcar, da má qualidade da telefonia, da remuneração dos
serviços médico-hospitalares e das perdas acumuladas por São Paulo com a
guerra fiscal promovida pelos governadores de outros estados (leia
mais<http://congressoemf oco.ig.com. br/Noticia. aspx?id=22810>).

As CPIs devem encerrar suas atividades no próximo dia 30 sem causar
embaraços aos governistas. E o que virá depois não tem potencial para tirar
o sono da base aliada do governador José Serra (PSDB).
Isso porque as próximas cinco comissões a serem instaladas foram propostas
por aliados. A partir de agosto, os deputados estaduais paulistas vão
investigar desde a situação financeira das Santas Casas, passando por
denúncias de abuso na área de direito autoral, até o repasse de recursos do
governo federal para a defesa animal e vegetal ao governo de São Paulo (leia
mais <http://congressoemf oco.ig.com. br/Noticia. aspx?id=22811>).
*Na gaveta*
Longe de ser novidade, esse cenário, porém, já foi ainda mais proibitivo
para os oposicionistas. De 1995 a 2002, na gestão dos governadores Mário
Covas e Geraldo Alckmin, foram criadas apenas 15 comissões de inquérito na
assembléia paulista.
Somente entre 2003 e 2006, 69 pedidos de CPI foram engavetados (veja a
lista<http://congressoemf oco.ig.com. br/Noticia. aspx?id=22811>),
incluindo algumas investigações incômodas para o governo, como a que
pretendia apurar denúncias de desvio de verba na Companhia de
Desenvolvimento Habitacional Urbano (CDHU).
A CPI da Nossa Caixa, com objetivo de investigar a privatização do banco
paulista, também ficou no papel, bem como a comissão que pretendia verificar
as causas do acidente nas obras da Linha 4 do Metrô. O desastre deixou sete
mortos e 230 desabrigados em janeiro de 2007.
Na atual legislatura, o PT conseguiu assinaturas para protocolar apenas a
CPI da CDHU, que está em 13º lugar da fila e só deve começar daqui a dois
anos. A liderança do partido acusa o PSDB de usar a ordem cronológica para
atrasar a apuração de irregularidades, já que não há nada no regimento
interno que fale sobre a implantação de CPIs pela ordem de apresentação dos
requerimentos. Já os governistas acusam a oposição de querer apenas tentar
desestabilizar o Palácio dos Bandeirantes.
*Base maciça*
A vantagem do governo paulista nessa queda-de-braç o tem explicação
aritmética. Com o apoio de três em cada quatro deputados estaduais, a
aliança em torno de Serra engloba 12 partidos (PSDB, DEM, PMDB, PPS, PV,
PDT, PP, PR, PTB, PSC, PSB e PRB). Entre os 94 deputados, apenas 23 fazem
parte da oposição – os 20 do PT, os dois do Psol e um dissidente do PV
(Major Olímpio).
Os complicadores são de ordem prática. Para se aprovar um pedido de CPI, são
necessárias 32 assinaturas. Ou seja, sem a assinatura de pelo menos nove
governistas, os oposicionistas não têm qualquer poder para criar uma
comissão parlamentar de inquérito.
Entre os requerimentos engavetados por falta de assinaturas está o que
propõe a instalação de um colegiado para investigar denúncias de pagamento
de propina da empresa francesa Alstom a membros do governo paulista (leia
mais <http://congressoemf oco.ig.com. br/NoticiaPrint. aspx?id=22488>).
Segundo o jornal norte-americano Wall Street Journal, que trouxe o assunto à
tona, a Alstom teria liberado US$ 6,8 milhões, na forma de suborno, para
obter um contrato de US$ 45 milhões com o Metrô de São Paulo. As
investigações, porém, estão correndo em segredo de Justiça e pouco se sabe
sobre o caso até o momento no Brasil.
*CPI da Eletropaulo*
Incapaz de recolher assinaturas suficientes para criar a CPI da Alstom, a
oposição tenta incluir a investigação na comissão que apura possíveis
irregularidades no processo de venda do controle acionário da Eletropaulo. A
antiga estatal de energia do governo paulista foi vendida em 1998 para a
Light Gás, por R$ 2,02 bilhões.
A 15 dias do prazo para entrega do relatório, o presidente da CPI, Antônio
Mentor (PT), admite que não será possível analisar todos os documentos
referentes à Alstom. Ele pretendia incluir a análise desses dados no texto
final que será enviado ao Ministério Público. O relator, João Caramez
(PSDB), defende as investigações, mas não vê necessidade de uma nova CPI. "O
governo suíço já está investigando, nós não temos acesso a relatórios, não
temos documento e nenhuma das comissões tem provas", diz.
A comissão aguarda também informações do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) acerca de um financiamento concedido à Light Gás,
objeto de suspeitas da oposição. Faltam chegar ainda informações da
Eletropaulo sobre a venda de ativos.
"Nesses dez anos, a empresa está transformando ativos operacionais em
não-operacionais, para depois vendê-los", acusa Mentor. Ativos operacionais
são aqueles que atuam na distribuição, incluindo torres de transmissão,
cabos, postes, entre outros.
Segundo o deputado, o contrato de concessão autoriza a nova controladora da
companhia energética a alienar tudo o que for não-operacional, ou seja,
imóveis e propriedades que não participam da distribuição da energia.
Mas, de acordo com João Caramez, "não foi comprovada lesão aos cofres
públicos". Por isso, alega o tucano, a oposição na Assembléia Legislativa
paulista decidiu mudar o foco, passando a questionar a metodologia de
avaliação do patrimônio da Eletropaulo.

*Troca de acusações*
Na época da privatização, em 1998, o governo do estado utilizou o método de
fluxo de caixa descontado, que projeta um faturamento para os próximos 30
anos. Sobre esse valor é aplicada uma fórmula que inclui o patrimônio da
empresa para se chegar a um preço final, de acordo com informações da
assessoria técnica de Caramez.
Antônio Mentor diz que os fatos surgiram durante as investigações e que o
método de fluxo de caixa não inclui o patrimônio da empresa. Ele acusa a
Light Gás de ter praticado conluio, pois "a empresa concorrente se retirou
da licitação em cima da hora e a companhia foi arrematada pelo valor mais
baixo".
O presidente da CPI acusa a base governista de boicotar os trabalhos para
obstruir a investigação. Por outro lado, o relator diz que a oposição
procura irregularidade onde não existe, apenas para prejudicar o governo.
Esta é a segunda tentativa de se investigar a privatização da Eletropaulo.
Em dezembro de 2006, uma CPI com objetivo semelhante ao da atual foi
instalada, por determinação da Justiça, após resistência da base aliada. Mas
o colegiado encerrou suas atividades sem conclusões.
"A comissão teve início em dezembro, logo veio o recesso e no ano seguinte
não tivemos tempo para analisar nada", reclama Antônio Mentor, que também
foi presidente naquela ocasião. Para João Caramez, nada de irregular foi
encontrado na época e, por isso, a CPI terminou sem indiciamentos.

*CPI da CDHU*
A Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano do Estado de São Paulo é
considerada uma caixa preta pela oposição. Vários pedidos de CPI sobre o
assunto já foram engavetados. Um, porém, segue na fila.
Como mostrou o *Congresso em Foco* na véspera das eleições de 2006, em março
daquele ano o ex-presidente da CDHU Goro Hama e sua mulher foram condenados
pela Justiça paulista a devolverem R$ 90,7 mil aos cofres públicos, acusados
de enriquecimento ilícito e improbidade administrativa. Na época, ele era
alvo de 82 ações por improbidade administrativa relacionadas à sua gestão na
CDHU.
Tesoureiro de várias campanhas do PSDB, Hama é diretor executivo da Fundação
Mário Covas. O tucano era acusado pela Promotoria de Justiça da Cidadania do
MPE de causar prejuízos de R$ 685,7 milhões aos cofres do governo
paulista (leia
mais <http://congressoemf oco.ig.com. br/Noticia. aspx?id=11061>).
Outras denúncias sobre a CDHU esbarram na falta de colaboração do governo,
que demora a enviar documentos solicitados pela liderança do PT na
Assembléia Legislativa. O partido suspeita de desvio de dinheiro público na
construção de prédios, já que muitas obras apresentam graves problemas
estruturais, como afundamento de piso, má qualidade do material e até
instalação de dutos de gás com graves defeitos.
Em 13º lugar na fila de CPIs da Alesp, a investigação sobre a CDHU pode
significar justamente um tiro no pé do governo, já que, pela ordem
cronológica, deve ser instalada às vésperas das eleições de 2010.
**De São Paulo, especial para o Congresso em Foco.*

ATUALIZADA EM:16/06/2008
*http://congressoemf oco.ig.com. br/Noticia. aspx?id=22808*

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Até tu, Brutus?

Até tu, Brutus?

* Jorge H. Saladino

Não é de hoje que a profunda crise ética e de identidade da política, e, conseqüentemente, da classe política brasileiras, tem sido um dos principais fatores de atraso, exploração e aumento da desigualdade social no país. Acobertados por uma legislação rígida para com a massa pobre e trabalhadora e flexível e displicente em relação aos detentores do poder e dos meios de produção, os políticos e seus pseudo-partidos, na intenção perversa de manterem-se no poder à qualquer custa, mantendo e ampliando privilégios, relegando o país e nosso povo à uma eterna expectativa de mudança que nunca vem, pela ausência de um projeto claro de nação, o que se reproduz em todas as demais escalas do poder, chegando inclusive aos municípios e seus candidatos à prefeito e vereadores que, por falta de discurso e atitude, garimpam votos em troca de favores pessoais.

Essa verdadeira deturpação da vida pública e do exercício de suas funções (basta analisar a maioria dos vereadores, que fazem de tudo, até distribuir pipoca e algodão doce como um da região sul, menos seu papel de criar leis e fiscalizar as ações do prefeito) faz com que a população em geral, desacreditada da velha ladainha de promessas e mais do mesmo da política tradicional, tenha abandonado suas esperanças num mundo melhor, entregando-se como gado no matadouro à esse discurso empreendedor hipócrita que só explora ainda mais a mão de obra e a dignidade do cidadão., transferindo para o individuo à responsabilidade do Estado.

Entretanto, de vez em quando, um louco aparece tentando devolver ao povo essa auto-estima, esse acreditar que dá pra fazer diferente, com ética, justiça, enfim uma sociedade para todos.

Em nossa região, o último dessa geração foi Emanuel Fernandes, que com um discurso pautado na ética e na justiça, derrubou as velhas raposas, dando lugar à uma nova visão de cidade. Em nível nacional, o principal ícone atual foi e é o deputado Fernando Gabeira, cuja sagacidade ética reacendeu o orgulho ferido do povo, transferindo ambos, tanto Emanuel quanto Gabeira, para seus partidos e correligionários, a idéia de que nem tudo está perdido.

O povo acreditou e agora está pagando o pato. O PSDB de Emanuel, tornou-se tão auto-suficiente e arrogante, que sequer dá atenção ao povo que o elegeu, tratando à tudo e à todos com descaso, desqualificando qualquer idéia que não tenha partido de suas angélicas cabeças, impondo ao povo um regime de tirania disfarçada.

Já o caso de Gabeira é pior. Seu partido verde, no qual acreditávamos um dos últimos redutos da ética, tem se envolvido cada vez mais em escândalos de corrupção, de desvios de dinheiro público, de notas frias, de falcatruas mil, de intolerância, abuso de poder, autoritarismo e outros. Basta ler os principais jornais do país para perceber que o verde que interessa ao presidente do PV, Pena e sua turma é o verde da nota de dólar, não tendo nenhuma proposta decente para o país, nem para a Amazônia, preferindo juntar-se a “gente boa como o Kassab”, ao qual tece inúmeros elogios conforme matéria do ValeParaibano, o mesmo jornal que noticiou o sepultamento de candidatura à prefeito do PV na cidade de São José dos Campos, afim de atender ao interesses de uma minoria que prefere viver das migalhas da administração pública. Propostas para o agonizante rio Paraíba, nem pensar! O negócio desses verdes é lucrar!

Portanto, é mais do que necessário que o povo, assim como o povo argentino saia às ruas e exija mudanças, vote em gente nova, sem rabo preso e que demonstre capacidade e competência não para distribuir cestas básicas e botijões de gás, mas para resgatar ao povo o orgulho de ser brasileiro.

Jorge Henrique Saladino

Arquiteto

quinta-feira, 5 de junho de 2008

GRAMSCI E OS INTELECTUAIS ORGÂNICOS


GRAMSCI E OS INTELECTUAIS

Laudicéa de Souza Pinto *

I - Introdução

Nos dias que correm, ainda encontramos intelectuais que se consideram os portadores predestinados da missão revolucionária sagrada e os profetas carregadores da “lei histórica”.

Engels definira a ideologia como uma maneira de pensar especial, uma “falsa consciência” em que os motivos determinantes (de ordem econômica) permanecem inconscientes. A leitura mecânica desta idéia faz um burguês pensar como um burguês, um nobre como um nobre, e assim por diante. Ainda, se trabalhando com a categoria “inconsciente” se teria teorias racistas (onde o “inconsciente” não é tão inconsciente assim), o ariano pensando como deve pensar o ariano, e o judeu e o negro como “podem” pensar o judeu e o negro.

O intelectual, entretanto, se considera imune a tais contingências. O intelectual gozaria de uma consciência verdadeira e não se sentiria inconscientemente manobrado por seus interesses econômicos. Foi preciso que Lênin, analisando a questão ideológica e da consciência e formulando a noção de “ideologia proletária”, desse vigor à discussão sobre esses pontos.

A verdade burguesa, legitimada pelos intelectuais, se opõe a verdade “operária”. Os intelectuais, que assim agem (conscientemente ou não) desenvolvem uma filosofia que serve para encobrir as misérias da época e fundamentalmente a separação angustiante entre seus poderes e o limite real da sua “realização”. Dissimulam cinicamente a dominação burguesa em seus pontos essenciais. Cumprem a missão odiosa de fazer aceitar uma ordem e fornecendo-lhe justificativas. Trabalham para afirmar e propagar as verdades parciais engendradas pela burguesia e úteis ao seu “poder” (Nizan, 1978: 32).

II - O que quer dizer “intelectual”?

A palavra intelectual, no sentido que a empregamos hoje, teria sido introduzida por Clemencean durante o caso Dreyfus. Em seu arrazoado contra os cleros, Julien Benda acusa principalmente a injustiça dos que, por motivo de fanatismo patriótico, condenaram o oficial judeu. Da Rússia Czarista utilizou o termo intelligentsia para designar o conjunto de intelectuais que matutavam e discutiam ardorosamente os prós e contras da revolução esperada. O termo, apesar da distância dos tempos, continua sendo usado para designar “os que pensam”, os que utilizam uma linguagem de código indecifrável, um “não compromisso real” indefinido, etc.

Nós, entretanto, preferimos a noção que nos fica da leitura de Gramsci, onde intelectual não quer dizer uma formação acadêmica específica, mas uma de ação social, um certo tipo de agente capaz de fazer a ligação entre superestrutura e infra-estrutura, independente de sua escolaridade específica, mas relacionada diretamente com o “lugar” que ocupa nas relações materiais/sociais de uma determinada produção social.

Na sua introdução, ao Materialismo histórico e à filosofia de Benedetto Croce, Gramsci desmistifica que o intelectual, por motivos quaisquer que sejam, seja o único capaz de “saber”.

“É preciso destruir o julgamento de que a filosofia é algo sumamente difícil por ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. É preciso, portanto, demonstrar que todos os homens são filóso“fos”, e definir os limites e as características desta “filosofia espontânea” própria de todos, isto é, a filosofia que nela está contida” (Gramsci, 1981: 15).

Assim, todos os homens são filósofos, porque pensar é próprio do homem como tal, a não ser uma personalidade patológica. O que separa um grupo do outro (intelectual e o não intelectual) não é a forma de conhecimento em si mesmo, mas um tipo de logicidade do pensamento, a coerência sistemática, a possibilidade de usar a própria história do pensamento, o seu sentido e também o seu desenvolvimento nas ações e tentativas de explicações do mundo.

Para Gramsci, a estrutura e a superestrutura formam um “bloco histórico”, isto é, um conjunto complexo e contraditório, onde a superestrutura é o reflexo do conjunto das relações sociais de produção. Porém, é preciso observar que a relação entre superestrutura e infra-estrutura não se dá abstratamente, ela acontece de maneira concreta, histórica e essa ligação teria de ser feita organicamente, necessariamente, e ao intelectual caberia mais essa função (além da que lhe cabe na classe social), a de realizar a vinculação dentro do bloco histórico.

III - Autonomia do intelectual

Um dos problemas importantes levantados por Gramsci é o da autonomia do intelectual. O intelectual seria considerado até por partidos comunistas como uma espécie de “força autônoma”, independente da “camada social em que gravita”.

Mesmo quando lança idéias que são aproveitadas pelo proletariado, este o mantêm “organicamente” afastado, seus chefes seriam tirados do grupo operário ou camponês. A origem intelectual, ou o privilégio intelectual criaria uma certa desconfiança ente as bases operárias.

Gramsci teria mostrado que a autonomia do intelectual, diante das classes dominantes é impossível, e se tornaria mais difícil à medida que o intelectual criasse “nome”.

Assim sendo, o intelectual é colocado como o “representante da hegemonia do grupo dominante”, que faria a ligação entre a superestrutura e a infra-estrutura.

Esta relação entre a superestrutura e a infra-estrutura, cria para o intelectual a possibilidade revolucionária de se relacionar organicamente com a classe em ascensão (o proletariado revolucionário), rompendo com a sua posição tradicional, podendo essa relação orgânica se efetuar com mais clareza em momentos de crise e questionamento de superestrutura.

Se antes era impossível a autonomia do intelectual tradicional diante da “hegemonia” também “tradicional”, agora, quando pensado o intelectual em sua relação orgânica com a classe proletária, essa autonomia cai de vez por terra, é uma nova orientação prática que se impõe historicamente aos intelectuais, através de uma ação organicamente orientada para a hegemonia do proletariado.

Desta forma, se fundam de vez a relação nova e revolucionária, que liga os intelectuais aos proletários dentro do “bloco histórico”.

Segundo Gramsci “todo grupo social, ao mesmo tempo em que se constitui sobre a base original da função essencial que ele assume no campo da produção econômica, cria organicamente uma ou mais camadas intelectuais que lhe asseguram homogeneidade e consciência de sua própria função, não somente no setor econômico, mas também nos setores social e político...” essas camadas intelectuais não surgem de forma abstrata, democrática, liberal etc., mas sim de relações concretas dentro do processo histórico de produção social. E será, na sua forma de se articular com a classe revolucionária (ou não), que poderá cumprir a sua “função de agentes da hegemonia”. O “valor intrínseco” da atividade intelectual, se é que existe, só tem razão de ser quando cumprida esta função, logo o intelectual pode estar se tornando o agente “orgânico” da reação, e, nesse caso, será necessário que os intelectuais orgânicos do proletariado sejam capazes de assimilá-lo, de conquistá-lo ideologicamente, ou que as “alianças se tornem possíveis”, mas que acima de tudo, a luta seja pela hegemonia do proletariado.

“No momento da crise do ‘bloco velho’, burguesia e proletariado disputam a aliança dos intelectuais tradicionais, cuja adesão torna-se possíveis e ocorre ‘espontaneamente’ nos momentos em que um grupo social determinado aparece como historicamente progressista, isto é, quando ele promove os interesses da sociedade como um todo, não somente satisfazendo suas exigências fundamentais, mas também ampliando progressivamente seus próprios quadros, através da conquista constante de novas esferas de atividades econômico-produtivas”.(Gramsci – citado por Macciocchi, 1982: 195).

Faz-se necessário a unidade (inseparável) entre ação e idéia, e que se torne permanente a reflexão sobre o comportamento político de forma paralela, e isto torna imprescindível a relação entre teoria e prática, que é o único caminho de se articular o proletariado e o intelectual dentro da classe.

IV - O lugar do intelectual hoje

“O intelectual de hoje, se tem uma razão de ser, é na medida em que ele confirma e propaga diferenças; o que acontece – de forma trágica – é que a diferença é vista como uma dissidência que passa também pela pesquisa de formas e linguagens novas”. (Julia Kristeva, 1977: 2).

A esquerda vive sempre com a concepção do intelectual engajado de Sartre ou do intelectual orgânico de Gramsci, mas a urgência hoje, passa por uma reformulação desta moral do engajamento, desta “vontade de servir” (ou dever). Talvez hoje seja indispensável reavaliar a relação indivíduo/sociedade e conseqüentemente a relação intelectual – grupo social.

Para se entender melhor o papel dos intelectuais hoje, seria preciso definir novos tipos de relações que unem o indivíduo aos grupos.

Só a prática incorporada ao cotidiano do intelectual, sendo de esquerda ou não, poderá levantar novas possibilidades teóricas/práticas de sociedades bem sucedidas. Mesmo que o capitalismo seja (e o é) um desastre para o homem, o socialismo poderá deixar de ser o mito de uma sociedade ideal, e se trocará o culto teórico deste mito, por ações que levem à sociedade possível, independente das modificações e inovações teóricas que se tenham que fazer e assimilar. É preciso que o Marxismo seja então uma linha de conduta, e não simplesmente uma “fé” a ser seguida.

Pode até ser que “não exista uma solução total, política” (Julia Kristeva, 1977: 2/3), capaz de resolver os problemas de todos os seres humanos, mas é preciso, apesar disso, que não se fique apenas em discursos singulares que tentam ir além das crises “individuais” e formulá-las para todos, “para que um conjunto social se mantenha atento, à escuta daquilo que o corrói, que o ameaça”.

O importante é que os intelectuais (principalmente os marxistas) “de cada país levem em conta com plena consciência tanto as tarefas fundamentais, de princípio, da luta contra o oportunismo e o doutrinarismo ´de esquerda`, como as particularidades concretas que esta luta adquire e deve adquirir inevitavelmente em cada país, de acordo com os aspectos originais de sua economia, sua política, sua cultura, sua composição racional...” (Lênin, 1978: 15).

Mas como se organizaria o intelectual preocupado com o seu papel de agente fundamental numa formação social dada?

Gramsci diz que a luta pela hegemonia não termina simplesmente com a tomada do poder, e a preparação operacional para a revolução, a natureza e a organização deste tipo de “exército” (o Partido) que levará à conquista é uma preocupação. O ponto fundamental do problema reside não na organização formal – Gramsci aqui é um leninista – mas na natureza da relação entre o Partido e a classe trabalhadora. Aqui, para nós é importante vermos como o intelectual se situa nesta relação (Partido/classe trabalhadora). O Partido deve não apenas guiar, ensinar e “representar” a classe, mas também fundamentar-se em sua atividade mobilizada como classe, “em cuja a base está a organização da fábrica, sobre a qual Gramsci deu tanta ênfase durante sua época em Turim” (Hobsbawn, 1977: 63).

Os intelectuais num país como o Brasil, por exemplo, talvez vivam se perguntando sobre o seu papel e o seu lugar. A história está “acontecendo”, e não espera pelos retardatários, como se ser sujeitos dela, quando ainda não podemos definir para que servem pelos sítios daqui o intelectual. No momento a classe trabalhadora está mostrando que nestes últimos anos de silêncio, desenvolveu os mecanismos capazes de criar seus intelectuais orgânicos, que estão em estreita relação com a política de hegemonia dos trabalhadores. E os intelectuais que se originam de outras classes?

Como se sabe, a maioria deles entre nós são de classe média. O que nos indagamos é se estão eles se relacionando de forma orgânica com a classe dominante, e neste caso, legitimam o sistema e defendem “o bloco histórico” para os poderosos, ou estão organicamente se relacionando com a classe trabalhadora?

Esta relação intelectual/classe, não é uma abstração, é algo tão concreto como um dia após o outro. E, talvez, seja esta relação o lugar que deva o intelectual não abrir mão, independente de sua origem de classe, e sabendo que esta trará problemas e vícios que terão que ser resolvidos. Este lugar não é um lugar teórico, é um lugar concreto, palpável, capaz de condicionar os instrumentos e desenvolvimento da teoria. Não basta ser um bom teórico, se faz necessário, para se ocupar este lugar, que se tenha uma “praxis” coerente com a luta de se fazer da classe trabalhadora, a classe hegemônica.

E, mais uma vez, é preciso não esquecer que ação e idéia são uma unidade inseparável. Não basta o discurso teórico brilhante, é preciso, antes de tudo, a ação coerente com o discurso da “classe trabalhadora” através de seus intelectuais orgânicos, independente de suas origens sociais, se possível.

Bibliografia:

ADLER. Gramsci. “Lênin no Ocidente”. In. Encontros com a Civilização Brasileira, nº 5. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,

GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a política e o estado moderno. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira; 1979.

........................ Materialismo histórico e a filosofia de Benedetto Croce. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; 1981.

HOBSBAWN, Eric. “O grande Gramsci, das lutas à prisão”. In. Cadernos de Opinião, n. 1; 1977.

KRISTEVA, Julia. Cadernos de Opinião, n. 1; 1977.

LÊNIN, Vladimir Ilitch. Que Fazer? Hucitec: São Paulo; 1975.

............................. Esquerdismo, doença infantil do comunismo. São Paulo: Ed. Símbolo; 1978.

Macciochi. A favor de Gramsci. Rio de Janeiro: Ed. Paz e Terra; 1982.

NIZAN, Paul. Les Chienes de Garde. Paris, Maspero, 1978.

Resumo: O propósito do artigo é o de tendo por referencial as propostas de Gramsci, refletir sobre o papel do intelectual no mundo contemporâneo.

Palavras-chave: intelectual orgânico, autonomia intelectual e bloco histórico.

* A autora é professora do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de janeiro.

FOnte: http://www.achegas.net/numero/onze/laudicea_pinto_11.htm

A culpa é sempre do pobre!

A culpa é sempre do pobre!

*Jorge Saladino

Fiel à política de propaganda nazista, de insistir na mentira até que se torne verdade, o governo de São José dos Campos, não perde uma oportunidade de lembrar ao povo que o “o inimigo do povo é o próprio povo!”

Em comunicado recente na mídia, em relação à greve dos condutores das empresas de ônibus, o governo não hesita: Joga a população contra os trabalhadores, ameaça, chantageia, omite-se às suas responsabilidades, assim como tem feito em todos os casos, onde a população ou grupo de trabalhadores se mobiliza afim de ter seus mínimos direitos respeitados e atendidos.

Isso é fácil de verificar no caso do Pinheirinho, onde, tenta-se vender a idéia de que “só tem bandido lá dentro”, no caso da GM, onde na defesa dos interesses da empresa, tentam jogar a responsabilidade do desemprego na cidade nas costas dos funcionários, como se não soubessem que a política atual da empresa é a de precarizar a mão de obra, não pensando duas vezes em fechar fábricas e levar para qualquer lugar do mundo onde possam explorar ainda mais o trabalho; nas muitas obras embargadas, como no caso do Fórum e do Teatro, onde não são respeitadas condições mínimas de trabalho; nas muitas e muitas desapropriações que, do dia pra noite, tiram as pessoas de seus lares sem qualquer garantia; na multidão de mendigos nas ruas, onde inclusive houve recente morte por frio nas nossas ruas devido á falta de sensibilidade do governo em dar um teto para essas pessoas em seus abrigos... Enfim, são muitas e muitas as ações onde a população mais pobre é sempre tratada com descaso e ainda tem jogada sobre suas costas, a responsabilidade pelos problemas, afinal, nesta ótica, o pobre tem culpa de ser pobre!

Mas em toda essa retórica, essa ladainha, eles tem uma razão: O inimigo do povo tem sido o próprio povo! Porque se deixa enganar pelas promessas dessas pessoas que estão claramente dizendo o tempo todo que nós, povo não somos prioridade, ao contrário, nós somos pra eles, o problema.

Portanto é hora de escolher um lado, um lado no qual o povo seja prioridade, senão continuaremos sendo explorados e humilhados, esmolando nossos direitos nessa “cidade de regras”, onde a regra é se dar bem nas costas do pobre.

Jorge Henrique Saladino

Arquiteto


quarta-feira, 4 de junho de 2008

Maio de 1968 - maio de 2008: “padres vermelhos” na fábrica da Renault

Maio de 1968 - maio de 2008: “padres vermelhos” na fábrica da Renault

Jean Birnbaum

Em 28 de maio de 1968, em Paris, um cartaz aparece afixado nos muros do Quartier Latin. Ele reproduz um artigo do filósofo Maurice Clavel (1920-1979), inicialmente publicado no jornal “Combat”. Nele, este esquerdista cristão, um admirador rebelde do general de Gaulle, propõe uma interpretação metafísica da insurreição: “Esta revolução é antes espiritual”, escreve. “O espírito está se vingando. Já não era sem tempo. A esperança está aí. Estudantes e jovens operários respondem por ela”. Mais tarde, este simpatizante maoísta chegará a ponto de proclamar: “Maio de 68 confirmou Deus. Sim, um Pentecostes da Igreja invisível. Houve uma forte ventania e as portas bateram”.

Este sopro prodigioso tem um nome: unidade. De um lado, a juventude estudantil se insurge, e de outro, os operários entram em greve; afinal, existe algo mais previsível do que essas ações? O verdadeiro acontecimento está em outro lugar - na fusão das duas revoltas. Juntos, tudo se torna possível: quarenta anos antes da provocação sarkozysta, Maio de 68 afirma a urgência de acabar de vez com tudo o que separa. “A grandeza do Maio francês está em dizer que a relação dominante/dominado não tem mais razão de ser”, assegura Jean-Claude Milner, um ex-maoísta e lingüista refinado. “No século 17, a respeito da Fronde [1648-1653, período de levantes em que se mobilizam o povo, os parlamentares e os nobres, e que abala a autoridade da monarquia], o cardeal de Retz declarava: ‘O povo entrou no santuário: ele levantou o véu… ‘ Maio de 68 é isso: ao longo de alguns dias, o povo levantou o véu”.

Milner faz parte do pequeno grupo dos militantes que definem as bases da Esquerda Proletária (GP), no outono de 1968. Todos eles compartilham uma mesma esperança: prolongar o estado de graça de Maio, impedir que o véu recaia. Não demora muito para eles furtarem bilhetes e organizarem circuitos gratuitos no metrô. Em 8 de maio de 1970, eles assaltam o empório de luxo Fauchon, em Paris, e logo depois vão distribuir o caviar num albergue de trabalhadores imigrantes. “Os militantes da GP bancavam os Robin Hood”, comenta em tom de brincadeira o filósofo Bernard Sichère, ele também um ex-maoísta, só que integrante de uma outra vertente. “Eles estavam imbuídos de um espírito aparentado à teologia da libertação. Aquele era exatamente o tipo de ação que poderia ter sido perpetrada por cristãos de esquerda”.

Mas o essencial, aos olhos dos jovens “guardas vermelhos”, é fazer com que os estudantes e os operários continuem agindo como atores contracenando uns com os outros, e até mesmo trocando os papéis entre si. Além disso, em artigos de “La Cause du Peuple”, (”A Causa do Povo”, o jornal da GP), uma obsessão sobressai de maneira recorrente, diretamente inspirada na “revolução cultural” chinesa: é preciso lutar contra a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual, superar as diferenças entre “os que trabalham e aqueles que pensam”. Para tanto, a iniciativa mais urgente consiste em multiplicar os contatos no terreno: “Aquele que não participou do inquérito não tem o direito de tomar a palavra”, martelam os militantes, retomando uma fórmula de Mao Tsé-tung.

A esta tarefa de investigação, os repórteres de “La Cause du Peuple” vão se dedicar de corpo e alma: “Nesta época, eu me torno uma espécie de monge mendigo”, testemunha Jean-Pierre Barou, hoje um editor, que multiplica então os inquéritos na Bretanha. “Eu perco a mulher com quem estou vivendo, e a menina que tive com ela também, e inscrevo a tragédia do proletariado em minha carne. Em Fougères, uma operária perguntou-me: ‘Para ganhar a sua vida, será preciso perdê-la?’ E lembrei-me imediatamente da última frase da minha mãe, ela também uma operária, em seu leito de morte: ‘Sabe de uma coisa, Jean-Pierre, eu levei uma vida de ingênua’”.

Os operários não são nem ingênuos nem passivos; no que lhes diz respeito, a imaginação se desdobra numa espontaneidade soberana: tal é para os maoístas a grande lição de Maio, aquela que arruína de uma só vez a antiga ortodoxia marxista-leninista. “No fundo, o que todos aprendem em Maio de 68 é que a classe operária pode pensar; e fazer com que outros pensem”, resumirá mais tarde o chefe da GP, “Pierre Victor”, mais conhecido como Benny Lévy, num diálogo com Philippe Gavi e Jean-Paul Sartre, que será publicado sob o título “On a raison de se révolter” (”Estamos certos ao nos revoltarmos”; editado na França pela Gallimard, 1974). A partir daquele momento, tanto na usina da Renault em Flins como naquela da Usinor (Dunkerque), ou ainda na fábrica da Babcock-Atlantique (Saint-Nazaire), trata-se de reconhecer o “poder espiritual criador” das ações operárias.

Em Maio de 68, um dos primeiros reflexos dos operários foi seqüestrar o patrão? “Estamos certos ao seqüestrarmos o patrão!”, dispara a GP. Outros maltrataram os executivos antes de procederem à “grande faxina” dos escritórios? “Bravo!”, clamam ainda os maoístas, que advertem os burgueses e seus “lacaios” nos seguintes termos: “Quando nós assim quisermos, todos unidos, nós os seqüestraremos, nós cuspiremos nas suas caras e nós os enforcaremos. Primeiro pelos pés…”

Mas a vocação dos maoístas não consiste apenas em investigar ou em promover arruaças na frente da sede das empresas. Ela exige endossar a bata azul dos operários. Para as dezenas de militantes, homens e mulheres, que decidem “instalar-se” nas fábricas, inicia-se então uma autêntica conversão: “Não é tão simples assim passar sem mais nem menos do estatuto de estudante para o de OS (operário especializado)”, conta Denis Clodic, que havia começado um ciclo de estudos de etnologia na Sorbonne quando resolveu pleitear um emprego na Renault. “É um percurso e tanto; em primeiro lugar, eu tive que fazer com que os outros se esqueçam do meu passado. Então, numa mesma linha de montagem, em Billancourt, eu me encontrei no meio de angolanos, de marroquinos, de portugueses. Neste tipo de situação, você deve aprender a falar com 300 palavras. Você acaba se tornando uma espécie de padre-operário: nós somos iguais a padres, só que padres vermelhos… que mordem”.

Dedicação, coragem, disciplina: entre o trabalho na usina e as reuniões com os camaradas, o “implantado” dorme pouco, dá tudo o que pode de si mesmo. No cerne do engajamento, insiste Benny Lévy, há “o elemento ideológico do sacrifício”. Um revolucionário não teme a morte, repete o líder maoísta. A morte simbólica, em primeiro lugar, quando o militante se retira após ter cumprido a sua missão de mediador, conforme testemunha Jacques Theureau, atualmente um pesquisador em ergonomia: “Nós fizemos de tudo para que os jovens operários adquirissem o domínio das operações”, recorda-se este antigo implantado numa usina da Renault, que organizou junto com outros militantes a visita de Sartre na usina de Billancourt, em outubro de 1970. “Nós nos considerávamos como os intermediários entre o não-poder e o poder. Nós orquestrávamos o nosso próprio desaparecimento”. Então, segue-se a morte real: em 25 de fevereiro de 1972, na Porta Zola da fábrica Renault em Billancourt, Pierre Overney desaba. Alguns instantes antes disso, ao encarar o vigia Jean-Antoine Tramoni, que estava apontando uma arma para ele, o jovem operário maoísta havia dito simplesmente: “Vai logo, atira!”

Nos dias que se seguem a este drama que abala a França inteira, os “novos partidários” da GP resolvem empenhar todas as suas forças na batalha. Não só seqüestrando Robert Nogrette, um executivo membro da diretoria da Régie Renault, como também, e, sobretudo, ocupando novamente as dependências da usina de Billancourt, apesar de esta ter a sua segurança reforçada pelos policiais militares. Neste caso, mais uma vez, a sua predicação revela ser tão solitária quanto suicida: “No terceiro dia, a gente tem o sentimento de que a coisa está preta”, conta Denis Clodic, atualmente um diretor de pesquisas na École des Mines (uma importante escola de engenharia) de Paris. “Em vez de nos dispersarmos, tomamos a seguinte decisão: ‘Mais vale fazer isso de maneira gloriosa’. Então, penetramos mais uma vez na fábrica, e lá, a situação toma um rumo verdadeiramente crítico: o nosso grupo se vê cercado e imobilizado, de maneira planejada, por uma centena de guardas que nos espancam e nos entregam para os policiais. Eu mesmo sou preso e levado para a prisão de Fresnes com a mandíbula destruída”.

Overney está morto, e o país permanece calmo. Para os militantes da Esquerda Proletária, este é o começo de uma vasta desilusão. Em breve, uma outra experiência, desta vez muito mais amena, acabará desnorteando a todos de uma vez por todas: a famosa greve da usina da Lip, que fabrica relógios em Besançon. Em 1973, ao protestarem contra o fechamento anunciado da sua empresa, os operários se organizam. No que vem a ser a primeira surpresa que eles aprontam, eles reinventam a autogestão. “Nós produzimos, vendemos e dividimos o pagamento”, este é o seu slogan. A segunda surpresa: eles são tomados pelo entusiasmo religioso, conforme constatam os emissários da GP. “Junto com Benny (Lévy), nós vamos até lá, e não acreditamos no que estamos vendo”, recorda-se Denis Clodic. “Eram padres brancos, líderes carismáticos, vestidos de branco, que organizavam uma comunidade em estado de revolta. A impregnação do catolicismo era enorme. Eles realizam tudo aquilo que nós havíamos sonhado, só que de uma maneira muito diferente, sem pensarem num único instante em guerra civil. Resumindo, nós logo compreendemos que não estávamos no rumo certo”.

Um detalhe chama as atenções de Benny Lévy e dos seus camaradas: os operários da Lip soldaram as portas da fábrica de modo a que elas permaneçam abertas, e até mesmo escancaradas. Isso nada tem a ver com as práticas da CGT (o principal sindicato francês de operários): desde Maio de 68, com o objetivo de impedir os avanços da “influência perniciosa” dos esquerdistas, o sindicato bloqueia sistematicamente o acesso das empresas. Já, no comitê de ação dos grevistas da Lip, ao contrário, todo mundo é convidado para tomar a palavra, participar, vender relógios… Ora, esses trabalhadores dispensaram sem nenhum problema o Pequeno Livro Vermelho, constatam os observadores da GP. Eles são liderados, em primeiro lugar, por ativistas cristãos, entre os quais o sindicalista Charles Piaget, membro da Ação Católica Operária, e o padre dominicano Jean Raguenès.

Na aventura coletiva dos maoístas franceses, o encontro com aqueles homens se revela decisivo. Ele provoca um brutal questionamento. “No nosso modo de ver, a greve da Lip representou o ponto extremo do grande impulso imprimido por Maio de 68″, precisa a historiadora Evelyne Cohen. “Eram operários tal como havíamos sonhado, e eles eram crentes. No contato de alguém como o padre Raguenès, que nos relata as suas experiências místicas, nós compreendemos que não é mais possível prosseguirmos mais adiante daquela forma no caminho da política. E que as molas propulsoras do engajamento são também religiosas”.

No final de 1973, a Esquerda Proletária opta pela autodissolução. A hora do inquérito social parece ter chegado ao fim. Chegou agora o tempo da busca espiritual.

“Le Monde”

Base aliada de Serra abafa apuração do caso Alstom

deu na folha de s. paulo e em o estado de s. paulo

Base aliada de Serra abafa apuração do caso Alstom

De José Alberto Bombig:

A base de apoio do governador José Serra (PSDB) abafou ontem a primeira tentativa de a Assembléia Legislativa do Estado investigar o caso Alstom, contrariando o que o tucano havia pedido na véspera: apuração total das denúncias.

O rolo compressor foi comandado pelo líder do governo, Barros Munhoz (PSDB). A tentativa de apuração ocorreu na CPI da Eletropaulo, na qual sete requerimentos do PT foram rejeitados deputados ligados a Serra e ao ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB). Os aliados do governador são maioria na CPI: 7 dos 9 membros.

"A CPI não é o melhor caminho para fazer esse tipo de averiguação. Isso é jogo de cena do PT", disse Munhoz. O deputado Rui Falcão rebateu: "Serra e Alckmin falam uma coisa, mas na prática a atuação é outra, é para que nada seja apurado".

Serra disse ontem que, se a Assembléia "quiser votar" pela CPI do caso, "ela vota". Anteontem ele havia afirmado que cooperaria com "outras medidas de investigação", desde que surjam novas informações. Ele chamou de "kit PT" a atuação de petistas para instalar uma CPI do caso Alstom.

"Tem o "kit PT" operando. Se surgirem mais informações -porque até agora não surgiram-, que sugiram outras medidas de investigação, nós acharemos normal e vamos cooperar." Serra disse que deu ordem a todos os secretários do governo e presidentes das empresas envolvidas no caso Alstom para que repassem dados solicitados pelo Ministério Público. Assinante da Folha leia mais em: Base aliada de Serra abafa apuração do caso Alstom

Base aliada evita depoimentos de ex-presidentes da Eletropaulo e da multinacional em CPI na Assembléia

De Eduardo Reina:

A base governista na Assembléia Legislativa de São Paulo conseguiu derrubar ontem seis pedidos de convocação de políticos e empresários para explicar o caso Alstom na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Eletropaulo. A multinacional francesa, que atua nos setores de transportes e energia, está no centro de uma investigação internacional sobre pagamento de propinas em troca de contratos.

Foram rejeitadas as convocações dos ex-presidentes da Eletropaulo e da Alstom, Eduardo José Bernini e José Luiz Alquéres, que ocupavam cargos-chave nas empresas na época em que, segundo investigação do Ministério Público da Suíça, teria havido pagamento de propina a integrantes do governo Mário Covas (PSDB)

Pé no freio – O transporte e a lei da mordaça


Pé no freio – O transporte e a lei da mordaça

  • Jorge Saladino

Insista tanto numa mentira até que ela se torne verdade! Com essa máxima bem arraigada, a prefeitura de São José dos Campos, tem tratado de servir à todos os interesses do mercado, de quem tem dinheiro, deixando o grosso da população sempre à ver navios, usando os meios de comunicação devidamente remunerados ou calados, para repetir sempre a ladainha: “- Só nós pensamos o bem da cidade, só nos estamos certos e, se alguém disser o contrário, está manipulando vocês (povo) e tem interesse eleitoreiro”.

E assim, direitos legítimos dos trabalhadores, como o direito à greve, a receber pela hora trabalhada, são desconsiderados sob o mesmo jargão: - “Não escutem, tem fim eleitoreiro!”

Ora, o povo pode ser pobre, mas não é burro!

O sr. Secretário de Transportes ir à público em relação à greve dos motoristas de ônibus e dizer que quanto ao passado, não pode fazer nada, mas que, como diria Roberto Carlos “- Daqui pra frente, tudo vai ser diferente!” é subestimar á inteligência e a memória das pessoas, pois a atual administração está na cidade já há 12 anos, querendo ficar mais 4, ele próprio está há 4 anos à frente da secretaria, e então, porque,até hoje, não fiscalizou as empresas quanto ao repasse dos direitos trabalhistas?

Balela, conversa pra boi dormir, e não adianta vir com a cantilena: “- A culpa é da oposição! Estão manipulando vocês, não ouçam, só querem o seu voto!!

Toda a cidade sabe que a oposição foi reduzida à pó nesta cidade do discurso único, onde todo mundo tem medo de abrir a boca com medo de retaliação.

O que se vê é um desmonte cada vez maior da capacidade de organização do cidadão, de seu direito de reivindicar, de escolher, afinal, nem opções de candidato à prefeito este ano vamos ter, reduzidos à mais do mesmo.

E assim, gente que só se preocupa com seus próprios interesses, continuará à explorar à miséria alheia, à deixar pessoas morrerem de frio nas ruas da “Cidade de Regras”, onde a regra maior é “o Quem pode mais chora menos”.

É hora do povo reagir, ir às ruas, votar contra, dizer um basta à esta lavagem cerebral que virou a política de São José dos Campos, onde quem é pobre só tem valor quando vota, onde o pobre é obrigado à se sujeitar à ganhar um salário de fome e dizer obrigado! Onde vereadores mal preparados assumem tribunas pra defender multinacionais ao invés de defender trabalhadores, onde só o povo tem de ceder sempre,apertando cada vez mais o cinto.

“- A mão que faz a máquina funcionar também a faz parar”

Fora com essa escória! Fora com eles!

Jorge H. Saladino

Arquiteto

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